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Sábado, 19 de Janeiro de 2019





Aos 100 anos, José faz rima e poesia para os netos quando recebe visita
Bem humorado, José gosta da agitação da família reunida e pouco fala sobre o passado, e brinca que para ele de velho e antigo bastam os anos acumulados com a idade


12 de Janeiro de 2019 - 17:06           principal  |  imprimir - Enviar Materia

 

Aos 100 anos, José faz rima e poesia para os netos quando recebe visita

 
 
Baiano, aos 100 anos José Paulino de Oliveira fala pouco sobre o passado ou sobre a infância difícil, mas ainda brinca de rimas com os netos quando recebe visitas, com versos característicos da literatura de cordel. Quem conta a história dele é a neta, Priscila de Oliveira dos Santos, de 24 anos, que vê na figura do avô o elo de toda a família.

O segredo da longevidade? A família não sabe explicar, “deve ser porque baiano dura muito´, brinca Priscila. José ainda é muito animado e gosta de ver a casa cheia, está sempre cercado de gente onde tem música e conversa animada, embora por esses dias ele pouco fale, mas não perdeu o gosto por observar a felicidade alheia. Espaço em que ele também aproveita para fazer graça, com rimas inventadas na hora de personagens que ele nunca nem viu, mas que costumam fazer todo mundo cair na risada.

José Paulino perdeu a mãe ainda bebê e mal chegou a conhecer o pai, que abandonou a família quando a esposa ainda estava grávida. Depois de ficar órfão, foi criado por conhecidos da mãe, de quem praticamente não se lembra. Talvez daí venha a preocupação constante com o bem estar de todos ao redor, de quem ele não apenas se lembra todos os nomes como também não faz confusão.

A vida não foi fácil para José, que desde muito novo começou a trabalhar com construção civil, levantando peso e passando horas em pé sob o sol, mas nem por isso teve medo de arriscar a vida fora da cidadezinha no interior da Bahia onde nasceu. Ainda jovem foi para São Paulo, em busca de emprego e melhores condições financeiras, o tempo exato ele não se lembra, com a idade, os anos passam a ser apenas números.

Em São Paulo, o emprego de fiscal foi apenas o primeiro passo na construção da própria história. Pouco tempo depois, ele conheceu Ana Martins de Oliveira, com quem é casado há 59 anos. De lá para cá, são 6 filhos e 8 netos, sem nunca se separarem ou existir um dia sequer. Aos 85 anos, Ana é tímida e “arisca para fotos´, mas Priscila afirma que ela compensa os trejeitos com toda a dedicação e carinho que tem pelo marido.

De São Paulo para Campo Grande os dois vieram juntos depois do casamento por volta da década de 1960, recomeçar em terras sul-mato-grossenses. Ana ainda se lembra da casinha de madeira onde criou os primeiros filhos, antes da construção da casa atual, uma edificação feita em família, já que a uma das filhas contribuiu para pagar o terreno e o filho mais velho, que aprendeu o ofício do pai ajudou José na construção.

Casa em que o casal mora desde que Priscila se entende por gente. As primeiras lembranças da infância são do quintal espaçoso da avó, sempre cheio de plantas, com pé de caju e acerola e todos os tipos de árvore, lugar que sempre foi sinônimo de aconchego pelo silêncio e pelo amor que habita as paredes.

“Quando penso nele, é a preocupação que ele tem com todo mundo que me vêm à cabeça. Hoje ele quase não sai, tem dificuldade de andar por causa da idade, mas está sempre perguntando sobre a vida dos filhos e dos netos. No aniversário dele, mesmo ele sendo o centro da festa, ela não sossegou até ter certeza que todo mundo estava comendo, tinha achado um lugar para sentar e estava bem, são pequenos gestos diários que deixam claro como ele se importa com cada um.´ Conta Priscila.

Foi também por incentivo do avô que Priscila, formada em moda e sem muitas opções no mercado de trabalho para se dedicar a área pela qual é apaixonada, se lembrou do conselho de José: “Ele sempre disse, para todos os filhos e netos, que precisamos saber como nos virar no mundo, mesmo que outras pessoas não abram as portas. Quando comentei para ele que não estava feliz no meu trabalho antigo, ele disse que a única coisa que eu não deveria fazer é ficar parada. Eu já estava com essa ideia de montar um brechó, quando decidi contar para ele, ele acabou sugerindo a mesma coisa antes que eu abrisse a boca´, conta.

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